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  • Carol Derschner

Ciência e espiritualidade: um relacionamento antigo e pouco conhecido


Se engana quem acredita que ciência e espiritualidade sempre traçaram caminhos opostos. Em verdade, essa dicotomia é até que bastante recente na história da humanidade, mas poucos sabem disso.


Em muitas tradições religiosas, a observação da natureza tinha justamente um significado espiritual mais elevado. Sua contemplação, no sentido de percepção e apreensão da obra do Criador, tinha um caráter meditativo, reflexivo e devocional perscrutava por Aquele inacessível que cria, por meio daquilo que é criado e a nós mais acessível.


A observação da parte abria caminho para um primeiro e mais acertado tatear e buscar em direção ao Todo, e também a seu sentido e origem. Deste estado contemplativo e imersivo no mundo natural, além da arte, nasceram também as ciências naturais, com presença significativa, inclusive na própria academia, adivinhem quando: no recentíssimo século XVII. Um detalhe histórico pouco conhecido, uma vez que tais fenômenos se apresentaram de forma muito diversa, pulverizada e inconstante ao longo do tempo.


Reconhecidamente sabe-se que, ao menos algumas partes do conhecimento acadêmico no contemporâneo Ocidente e de escolas de formação no antigo Oriente (especificamente na Idade Média), nasceram do berço de tradições religiosas que cultivam a observação e o interesse pela natureza, dando a esse ato uma reserva bastante especial. Isso sem considerar as motivações científicas inflamadas por um verdadeiro senso de amor ao próximo e de busca pelo bem estar da maioria, fundamentado em um caráter espiritualizado, mesmo que nem sempre religioso. Também e em grande número porém de forma isolada houve pensadores e religiosos que uniram sem dificuldade estas duas pontas entre matéria e espírito, como um ponto de passagem inevitável. Por ele, levaram suas conclusões adiante que, sem essa transposição, não poderiam ir além e teriam que se estagnar e murchar, acabando por flutuarem inconclusas entre si, mesmo que separadamente ainda conservassem seu valor.


Negligenciar a matéria em oposição ao espírito ou fazer o oposto, de fato não é uma questão nova, sendo que na atualidade, teóricos, monges e praticantes da religião sempre se veem às voltas com esta, estranhamente recorrente indagação: qual o limite, a dosagem certa entre uma coisa e outra. Quando termina um, e começa o outro?


Pergunta atual, prática antiga


Ainda na Antiguidade e em alguns povos como Incas, Sumérios, Sabeus, parte dos Babilônios e pré-celtas, o próprio saber não discernia conhecimento espiritual daquele mais prático, do qual hoje fazem parte as ciências naturais, por exemplo. Tudo era integrado, da matéria ao espírito, em perfeita ligação, podendo-se extrair igualmente da observação da natureza, princípios também aplicáveis ao domínio do espiritual, hoje conhecidos como Leis Naturais ou "Leis da Criação", em uno e coeso existir. A separação entre conhecimento do mundo e religiosidade, acentuada em certos períodos históricos e vertentes religiosas, é em verdade bastante nova e surgiu, em grande parte, de contendas e divergências do que seria correto ou pernicioso no ato de "conhecer".


Se por um lado em algumas tradições, o pesquisar foi considerado um afastamento descabido dos desígnios espirituais, por outro, as metodologias científicas, tais como foram constituídas, também solaparam toda uma dimensão sim observável, simplesmente por não se encaixarem em pressupostos materialmente compreensíveis, no sentido estipulado pela tradição científica. Sabe-se hoje, portanto, que a ciência é sim fonte de conhecimento, mas carece da integração com outras esferas para que possa se transformar em saber completo, tal como já fora concebido antes por seres humanos racionalmente simples, mas com extraordinária capacidade de elaboração, percepção e conexão transcendental. Nestes, ficava claro que estas duas "formas de ser" no mundo não são de nenhuma maneira excludentes, mas podem existir sobrepostas, conforme um exame mais aprofundado facilmente conclui e suas obras e conhecimento tradicional facilmente denotam.


Enganamo-nos terrivelmente, portanto, quando acreditamos que ciência e espiritualidade foram sempre e uniformemente vias opostas de uma estranha e incompreensível estrada. Também não é difícil de imaginar que, estando a transcendência ligada em última análise à felicidade e à própria condição existencial, não tenha nada a ver com o que compõe e se desenvolve em todos os territórios do existir, no qual caem folhas secas, cantam pássaros, nascem crianças, dividem-se células e desabrocham flores.


Olhar o mundo separadamente ou buscar pontes ainda invisíveis? Quais serão de fato os próximos territórios e fronteiras não exploradas do conhecimento, que julgamos sempre estarem a galáxias de distância, ao invés de tão perto, quase como se insistissem para serem percebidas e notadas?


“A humanidade só tem de conhecer, antes de mais nada, as leis que residem na Criação. Se viver de acordo com elas, terá de se tornar feliz! Hoje, porém, ela ainda se acha muito distante disso e, por essa razão, aqueles que se aproximam da Verdade na Criação sentir-se-ão, por enquanto, solitários na maior parte das vezes, o que porém de modo algum infelicita, mas sim traz em si uma grande paz.”


Abdruschin, Na Luz da Verdade – Mensagem do Graal



Caroline Derschner é pesquisadora independente nas áreas de Autoconhecimento e Espiritualidade.