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  • Carol Derschner

Açúcar


Deolinda tinha poucos anos na época, mas já era moça, alta e ligeira. A soleira da porta e o terraço eram quase que uma coisa só, caminho de passagem dos braços cheios de cana fresca, brecha para um espio do moço ao lado, filho de gente douta e encaminhada.


Argelino era assim, magro, astuto, sorridente, sabedor dos negócios da família, cheio de dentes. Ele não mexia em cana, seus negócios eram outros, coisas de papelada. Deolinda não sabia ao certo o que eram, mas ocupavam-lhe certo tempo no casarão empoeirado. Papeladas são coisas de importância. Decerto a poeira toda no casarão não lhe causava asma? As tosses, quando vinham, eram outras. Tinham causas de cansaço. Diferente do pigarro de gente que se confunde com os pés de cana e apalpa a terra com os pés o dia todo.


Ao menos Deolinda tinha seu vestido branco para ele reparar aos domingos, e ele lá, sempre aos negócios, com o açúcar desfazendo-se no café quente e encorpado, enquanto ela se desfazia em gotas no barracão junto à garapa na fervura. Os vapores dali eram os mais doces de toda a propriedade, e o moço Argelino, seguindo um dia sem perceber o cheiro agudo que dali se desprendia, procurou ao redor da moça e achou de onde vinha seu doce.


Deolinda não estava de vestido branco naquele dia, mas a brancura dos dentes se mostrava em um sorriso sincero, franco. Ela também tinha dentes, mas não entendia nada de papeladas. O próprio nome tinha riscado no chão apenas uma vez com a ajuda da tia. Sabia como se parecia o desenho de seu nome, e a forma bonita das letras lhe agradava. Como o açúcar da cana tenra, o desenho do nome era bom, sem explicação.


Argelino voltou mudado daquele dia. Passou a reparar mais na moça. Não tinha dote, nem piano, nem alta costura. Não tinha conversa frouxa ou risada frívola, mas não era muda como as paredes de retratos de seu casarão. Era Deolinda apenas, uma fração de mulher com olhos acordados e lustrosos — e ali, de dentro dos olhos, via vida a saltar fora. Como o pé de manga entre as canas, ela era diferente.


Caroline Derschner

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