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  • Carol Derschner

Amor de biscoito

"Rosquinhas são a medida certa de sabor, nem mais, nem menos. Não há quem não goste delas. São como um abraço carinhoso e conhecido, um sorriso sincero no fim do dia, um suspiro compartilhado depois de algo que deu errado. Com as rosquinhas, sempre fui feliz, mas demorou para que eu assumisse esta paixão completamente.” - Denyer Barok, Chef de Cozinha


Denyer Barok* é um Chef mais conhecido por seus aforismos sobre a vida cotidiana do que pelas peripécias na cozinha. Deixou as panelas em 97, quando saiu da França (naquela época recém-celebrado pelo restaurante Mimettre), para dar lugar a sua paixão verdadeira: dar conselhos e fazer rosquinhas.

No começo não foi fácil arranjar um lugar que lhe coubesse no mundo, não há muito espaço para trovadores sentimentais no reino das panelas, que dissesse fora dele. Veio então para São Paulo e abandonou os elegantes pratos de passarela do Mimettre para fazer rosquinhas — agora, as mais charmosas da cidade — e que ainda vêm com um diferencial: pequenos textos escritos à mão em suas caixinhas, que servem de alento para clientes sedentos de alma e açúcar.

Em uma delas, simples, com apenas 12 biscoitos cuidadosamente empilhados, somente uma frase ocupava o espaço: “True love is like a cookie.” (O amor verdadeiro é como um biscoito).

Intrigada, fui perguntar ao próprio Denyer o que isso significava. Para minha sorte, ele não gosta muito do estrelato e recebe qualquer um em sua pequena cafeteria nas imediações da cidade. Para a sorte dele, eu gostava de fazer perguntas, o que me rendeu um episódio curioso ao lado do grande chef de rosquinhas e conselhos.

- Por que o amor verdadeiro é como um biscoito Denyer? — perguntei a ele.

- Muito simples — respondeu.

- Depois de passar alguns anos em grandes restaurantes, começando pelo cargo de auxiliar do sub-assistente de alguma tarefa e terminando como o Chef pouco amistoso, que decidirá o que será servido na semana de acordo com seu humor, você aprende algumas coisas. Muito do que aprendi está relacionado ao amor, ao amor verdadeiro.

- Como assim Denyer? — indaguei

-Veja só, eu era capaz de fazer pratos elaborados, elegantes, ou só cozinhar o que os outros gostavam, mas muitas vezes nada daquilo era amor verdadeiro, não tocava o meu coração. Andei um longo caminho para descobrir o que era o amor e como colocá-lo na rotina, até mesmo nas tarefas que não gostava tanto.

-Humm

- Amor verdadeiro são como rosquinhas, iguais às que faço hoje! E ninguém me deixava fazer rosquinhas em minha saga pelas cozinhas estreladas. Tentava escapar entre um caldo e um risoto para fazer algumas simples rosquinhas para o café da tarde, mas não havia espaço para elas em meu dia. Sempre havia alguém importante para atender e geralmente essa pessoa não vinha até mim em busca de rosquinhas! Riu.

— Neste momento ele faz uma pausa, se emociona, e continua:

- No máximo conseguia começar a bater os ingredientes, e logo vinham os problemas para resolver, você sabe, a cozinha é um ambiente difícil, é preciso estar preparado. Teve uma época que consegui que houvesse rosquinhas no restaurante, mas como eram muito simples de se fazer, um encarregado podia prepará-las, enquanto eu tinha que dar atenção aos pratos mais elaborados. Foi um pouco frustrante perceber isso.

- Puxa!

- Quando digo que rosquinhas são como o amor verdadeiro, digo isso porque elas nunca falham. Podem não ser um doce super elaborado e colorido, nem aquele prato exótico e caro que você gostaria de experimentar ou que há anos se pergunta por que nunca fez. Mas às cinco ou seis da tarde, tudo o que você vai precisar são rosquinhas amigas. Singelas rosquinhas e uma xícara de chá, que pode até estar frio, mas se as rosquinhas forem como as minhas, elas salvarão sua tarde.

- Uau! Podemos fazer uma comparação então com um relacionamento verdadeiro? Não necessariamente é algo espalhafatoso, aventureiro ou cheio de glamour. É algo nesse sentido?

- Você está no caminho certo cara! Rosquinhas são a medida certa de sabor, nem mais, nem menos. Não há quem não goste delas. São como um abraço carinhoso e conhecido, um sorriso sincero no fim do dia, um suspiro compartilhado depois de algo que deu errado. Com as rosquinhas, sempre fui feliz, mas demorou para que eu assumisse esta paixão completamente. Ninguém quer admitir que passou por uma escalada rumo à fama e deixou tudo para trás para se dedicar às rosquinhas, que aliás, nem são uma sobremesa, apenas um tímido item de pâtisserie. Chamo de sobremesa porque para mim elas valem muito mais do que qualquer crème brûlée de confeitaria, entende?

- Acho que sim...

-Mas como tudo na vida tem seu tempo, demorei um pouco para perceber que uma vocação a gente só consegue esconder até certo ponto, e quando percebi que aquilo era amor, cheguei ao meu limite.

-E como foi isso?

- É preciso ter amor pelo que se faz, simplesmente porque esse é o ingrediente mágico que faz tudo funcionar, na cozinha, nos relacionamentos, na barbearia. Com as rosquinhas era assim. Muitas vezes a gente deixa o amor escapar preocupado com outras coisas que gravitam em torno do dia a dia, as contas, o cliente insatisfeito, aquela moça que tinha alergia a camarão e eu não sabia, nossa, nunca me esqueço daquele dia! Enfim tudo isso deixa o amor passar despercebido se você não estiver disposto a vê-lo, compreende?

- Realmente...

- Acontece que no final, você se vê rodeado de conquistas, quadros nas paredes, recomendações disputando espaço na edição de sábado nas revistas, e nada disso lhe satisfaz, o amor mesmo, se perdeu. Certo dia me vi sozinho em minha cozinha e elas, somente elas (as rosquinhas) me deram ânimo para juntar um punhado de farinha e preparar algo. É nessas horas em que você se reconhece meu amigo. Quando as vi, douradas, saindo do forno com seu perfume leve, amanteigado e alegre, sabia que estava mais perto das coisas que faziam me sentir eu mesmo. Não que as rosquinhas sejam minha razão existencial, longe disso, mas poder fazer algo com gratidão e felicidade, é o que com certeza me reaproxima de minha razão existencial, do sentido de minha vida. Elas me ajudaram a levar isso depois para outras coisas também, esse zêlo, esse cuidado, essa entrega.

- Você fala bastante em amor verdadeiro, existe então um amor que não é verdadeiro, um falso amor, Denyer?

- Você chegou no ponto certo, minha amiga. Não existe amor falso, ou é amor verdadeiro ou não é amor. O problema é que as pessoas hoje confundem uma porção de coisas com amor, que não são amor de jeito nenhum.

- Como assim?

- Devo lhe confessar que nós humanos somos péssimos em matéria de amor. Esse amor, que temos pelas coisas, pelas causas, por uma pessoa, por nosso trabalho, é ainda apenas um pequeno amor. O amor pequeno é só uma pequena mostra, para nós palpável, de um Amor muito maior, transcendental, sinônimo de toda vida, da alegria de viver. Existir é maravilhoso, você já pensou sobre isso?

- O senhor estuda filosofia? — perguntei curiosa.

- Alguma coisa. A filosofia, se você quiser saber, pode ser extraída de tudo que se queira conhecer verdadeiramente e com profundidade, não é preciso ir à Sorbonne para desvelar a consciência humana. A filosofia está em tudo minha jovem, é por isso que alguém pode acessá-la até mesmo por meio de uma fornada de rosquinhas...

- Obrigada Denyer! Acho que encerramos! Fantástico!


Denyer Barok* é um personagem fictício, assim como este texto, apenas um exercício literário.