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  • Carol Derschner

Canção dos dias


*Texto publicado na antologia "QUARENTENA - Memórias de um País Confinado" Ed. Chiado - Portugal 2020


Silvana olhou pela janela — nenhum movimento atravessava a rua. Um silêncio, uma solidão. A sesta seguia lenta, lembrando que não havia nada a fazer e que estava só.


O sol mirou a samambaia na sala, uma criança gritou alto no andar de cima. Deitou as costas sobre a poltrona de couro e deixou-se ali, à espera das horas.


Não podia sair, não podia ir. Não podia comprar, nem decidir. Como a samambaia em vaso pequeno, seu apartamento só fazia comprimir.


Então lembrou-se que, na verdade, não gostava de sair. Que as pessoas, as coisas, tudo fora sempre puro tédio a existir. Agora, seu universo apenas se estendia a todos, engavetando o mundo. Sempre fora sua própria quarentena.


Na janela, vitral de beleza, a tempestade se achegava. As nuvens carregadas, cheias de energia, se chocaram em relâmpagos em plena luz do dia, transfigurando o rosto da senhora. Um clarão invadiu a sala, as luzes se apagaram com um ruído. Silvana, em pé, tombou para trás, desnorteada. Ficou assim, no escuro, quieta como uma semente, por muitas e muitas horas, enquanto chovia como quem chora.


Se pudesse, teria sido diferente. Pisaria cada palmo de chão doutra maneira. Agradeceria o troco, faria as pazes consigo mesma. Pintaria de novas cores sua própria solidão. Traria música para os dias quentes e sabores para cada refeição. Um gato talvez teria, talvez não. Que importa, que importaria, se pudesse outra seria, chamaria enfim a vida para dentro de sua própria canção.


Caroline Derschner

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