Buscar
  • Carol Derschner

Lições de ventania


Ando pelo quintal e observo o saldo inesperado de uma ventania vigorosa: galhos e gravetos valiosos para a lareira! Valiosos?


Penso nas épocas e lugares nos quais, se não havia madeira, não havia fogo. E sem fogo, havia frio. A dependência da natureza era muito mais clara para os povos do passado do que para nós. Dependência vital que, quando atendida, podia ser motivo de verdadeira gratidão.


Não uma gratidão mental forçada, mas real, marcada pelo contraste diário entre viver ou perecer.


Tal dependência mostrava, de forma bem empírica, que os seres humanos não eram os donos da vida, e sim receptores dela. Viam que recebiam, no ar, no sol, na luz, no calor. Era um ganhar sem cessar! Imagino: teriam acaso penosas crises de identidade para entenderem seu real lugar no mundo, como costuma acontecer a nós, seres da modernidade? Eram pequenos, não eram o centro, eram dependentes e, mesmo assim, ganhavam coisas o tempo inteiro. Como não se sentir feliz e grato?


Muitos de nós não precisam de gravetos para vencer mais um dia, mas pessoalmente, tendo a acreditar que a chave para a satisfação continua passando por algumas dessas duas questões fundamentais e atemporais aqui citadas: entender nosso real lugar no mundo e aprender a receber tudo que ele nos dá.


Caroline Derschner

todos os direitos reservados