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  • Carol Derschner

O mercador


Jamil empurrou a porta emperrada da loja, que reagiu metálica deslizando pelo chão de azulejo. O dia estava quente e não demoraria a surgir uma velha e estranha sensação que às vezes se avizinhava, visitando-o em seus dias de trabalho...

Percorreu os tapetes empilhados com as pálpebras semicerradas, tique de um antigo traço genealógico seu. A luz agora adentrava a pequena esquina da Ladeira Constituição, atestando que estava aberto o comércio de rua e avivava as cores fortes e destacadas dos arabescos nos tapetes à venda. Folhagens em azul anil apareciam na tapeçaria logo abaixo do papel que anunciava a quantia modesta a ser oferecida pelo produto. Podia-se fazer em duas, três, até quatro vezes — pensava ele.

Devia negociar, como fazia seu tio quando ainda trabalhava na loja. Mas sem sua presença algo lhe escapava e fazia-se terrivelmente ausente. Não sabia o quê, mas aquela falta retirava algo sem nome do lugar. Algo que chegava a esvaziar completamente o cômodo comercial, mesmo tão repleto. Isso acontecia especialmente quando algum cliente antigo adentrava a loja, desejoso do sorriso conhecido de seu tio. Nessas horas Jamil sentia-se menor. Via-se secar, contrair-se por dentro, escondendo os olhos nos cantos abarrotados de mercadoria. Não poderia oferecer aos passantes a presença de quem se foi, apenas tapetes. Enrolados, vultuosos e cheios de memórias.

Enquanto o calor aumentava, a balbúrdia que tomava conta da 25 de Março lhe lembrava onde estava.

Alguns funcionários haviam chegado enquanto ele esquadrinhava os metros quadrados repletos de pilhas de tapetes e almofadas que se alternavam, em organizada disposição. Ergueu um tapete para fora da porta e enquanto batia a poeira que se levantava dos fios, descuidadamente deslizou por uma duna de pensamento, lembrando-se do deserto.

Havia visto um filme na noite anterior e a lembrança de áridas cenas tomavam de susto sua mente. Era um filme de ação, repleto de conflitos, emboscadas e tempestades de areia, mas a visão do deserto sempre lhe trouxera paz, calor e quietude. Uma quietude estranha, pois não era vazia. Uma quietude cheia de sons... inaudíveis.

Buzinas, gritos, ofertas mirabolantes, era essa a cantilena daquele lugar onde estava agora. O ardor que tomava conta da rua, vinha do sol, do asfalto e das pessoas em movimento, —mas o calor do deserto não era como esse. Fazia os homens se sentirem bem pequenininhos, parte de um universo monumental de areia e sombra, no qual a pele acolhia a brisa carinhosamente, como um presente. O deserto tem um jeito estranho de abraçar.

A poeira do tapete ainda flutuava no ar, brilhando intensamente. À sua frente as pessoas fugiam do calor com desespero e, se pudessem, apagariam o sol do céu... O que estava dizendo? Nunca havia estado no deserto.

Voltou a si e pensou consigo mesmo, não havia gostado muito do desfecho daquele filme afinal. Meio dia já se esgotava, podia ter vendido mais, se apenas tentasse negociar... Mas não, não era seu tio. Gostava dele, mas não era sua a inata habilidade em vender três ou até quatro tapetes de uma vez só. Pensou em palmeiras de oásis avistadas ao longe, por cima de um traço no horizonte fugidio. O olhar tremulando pela paisagem quente, brincando com miragens da imensidão, era como se seu peito fosse soltar-se diante de tanta beleza...

Entram alguns clientes. Jamil atende, prestativo e calmo. O calor agora parecia chegar ao seu ponto máximo enquanto os ventiladores de teto zuniam monotonamente, lembrando o canto ecoante de tribos perdidas que nunca vira. Tribos enroladas em panos gastos e enterradas na areia fria ao entardecer, como formigas pregadas em volta do fogo, em terras que nunca sequer avistara.

Pisa no degrau da porta uma mulher de cabelos castanhos, aparenta cerca de quarenta anos. Deve estar procurando um tapete para sua casa — imagina. Ela abre um sorriso franco e pergunta o preço dos tapetes encostados à beira da calçada. A mulher examina os tapetes com cuidado.

Jamil observa acena em silêncio sem saber o que fazer. Dá alguns passos para trás, quisera poder se esconder nalguma sombra. Sentia-se exposto, como nas terras cor de ocre, quando não havia planta, nem pedra, nem sequer um risco de sombra para se esconder e eclipsar a timidez. Vaga inda mais longe das paisagens cotidianas, atravessa vales secos. Quando sentimos a amplidão do deserto aprendemos a confiar nos passos que levam ao futuro, mesmo sem vê-los. É preciso saber que existe algo além do que não se pode distinguir na linha do horizonte.


Mais sol e calor aferventavam o ar... Estaria perdendo os sentidos? Jamil dissimula os pensamentos fora de hora e lugar. Engole seco com a garganta. Oferece água à cliente em um copo plástico trêmulo e frágil, que, como ele, suava.

Observa os movimentos dela, sua maneira de mover as mãos. O movimento daquelas mãos, não de outras. Era um bom conhecedor de mãos — lugar para onde fugia e descansava o olhar vez ou outra ao atender seus clientes. Observou a lentidão do vento morno, resto de tempestade de areia, silvando notas entre os dedos dela, a pele do dorso ligeiramente castigada pelo sol intenso. Onde estava agora? Não sabia bem...

A mulher para por um instante, com ternura no rosto e uma leve risada enquanto percorre mais um tapete com minuciosa atenção. "Este aqui é uma beleza, mas não deve ter vindo do deserto para chegar até aqui, não é mesmo?"

Não foi mais possível conter a sensação de brisa que subia naquele momento. Refrescava, revolvendo com delicadeza a duna-cidade ao entardecer. A brisa não era quente, nem fria, elevava-se volátil e perfumada pelo cheiro de uma caravana distante. Emoldurava o tecido uniforme de cristais de areia fina que bordavam o solo, estendendo sua tapeçaria dourada até as bordas da Terra. Lá, onde os rios brotam sem aviso e finalmente encontram as mais belas tamareiras em flor, ali estava ele.


Caroline Derschner

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